Como configurar o ChatGPT ou o Claude para advogado? Contexto vai na memória uma vez, não 'aja como advogado' em cada pergunta
Uma vez só, no campo de instruções permanentes da ferramenta: quem você é, sua área, seu tipo de cliente, sua comarca, como quer as respostas e o que ela nunca deve fazer. Isso vale em todas as conversas. 'Aja como advogado' em cada pergunta não diz nada a ela. Dado de cliente e caso concreto nunca entram na configuração.
Neste artigo (7 seções)
O estagiário no primeiro dia
Quase todo advogado que eu conheço começa a conversa com a IA do mesmo jeito: “aja como um advogado trabalhista e me diga…”. E repete na conversa seguinte, do zero, como se a ferramenta tivesse amnésia.
Pensa num estagiário novo. Se você só diz “você é estagiário de direito”, ele entrega o que um estagiário genérico entrega. Se no primeiro dia você senta dez minutos com ele e explica quem são os seus clientes, em que varas você atua, como você escreve e o que te irrita numa peça, ele passa a trabalhar no seu nível dali em diante. Você não repete a explicação toda manhã.
Foi o que eu disse num vídeo em julho: “sem contexto, a IA é um estagiário no primeiro dia. Com contexto, ela já chega conhecendo o teu escritório”. A ferramenta tem um lugar para essa conversa de dez minutos: o campo de instruções permanentes, e a memória. Você preenche uma vez, e vale para todas as conversas seguintes.
“Aja como advogado” não diz nada
No mesmo vídeo eu disse: “Esquece aquele lance de ‘aja como um advogado’. Isso não diz nada pra ela. Contexto é o que muda a tua resposta. E o melhor, você vai ter que fazer isso só uma vez, lá nas configurações ou na memória da ferramenta, e ela vai passar a te responder no teu nível, dali pra frente”.
“Aja como advogado” é um papel. Diz para a ferramenta soar como advogado. Não diz qual advogado: trabalhista ou tributário, do empregado ou do banco, de texto curto ou longo. O que sai é o advogado médio, e o advogado médio é a resposta morna.
Persona tem lugar. Serve para o tom e o papel de uma tarefa: “responda como o advogado da outra parte atacaria esta cláusula” muda a resposta daquele pedido. Mas não muda o nível geral. O que muda é contexto, e o seu contexto não muda de uma conversa para a outra.
Marcar “jurídico” no menu de profissão do perfil também não resolve. Quando mostrei numa live, eu disse na hora: “na real, ele não tem muito impacto”. Onde muda de verdade é no campo de instruções.
Dois contextos, dois lugares
O primeiro é o seu: área, cliente típico, comarca e tribunais, formato e tom das respostas, o que a ferramenta nunca deve fazer. Ele é estável. Vai na configuração, uma vez.
O segundo é o do caso: quem é o cliente, o que aconteceu, o que ele quer, o que você já descartou. Ele muda a cada conversa. Vai em cada pedido, ou no documento anexado, como escrevi em por que a resposta da IA é sempre morna?. Este artigo é o complemento daquele.
Misturar os dois é o erro mais comum: o caso de hoje contamina as conversas de amanhã, e o nome do cliente fica gravado onde não devia.
O que entra na configuração, na ordem em que eu preencho:
- Quem você é e a sua área, inclusive o lado que costuma defender.
- Para quem você trabalha: pessoa física ou empresa, porte, setor. Isso muda vocabulário e prioridade.
- Onde você atua: comarca, varas, tribunais, para o texto sair no endereço certo.
- Como você quer as respostas: formato, tamanho, tom. Aqui eu insisto: “pede pra ele ser crítico, pra ele realmente ser combativo nas tuas ideias”, porque a tendência dessas ferramentas é concordar com você.
- O que ela sempre faz e o que nunca faz. No meu caso: sempre dizer onde conferir, nunca inventar jurisprudência nem artigo de lei. É lembrete, não garantia; como conferir o que ela cita está em como saber se a jurisprudência que a IA citou existe?.
- O que você mais vai pedir: peças, contratos, resumo de documento, atendimento, rotina. Pode ser tudo isso.
Na escada dos quatro níveis, é instruir uma vez só, em vez de instruir a cada pedido.
Onde fica em cada ferramenta
Conferido em outubro de 2026 na documentação da OpenAI e da Anthropic. No ChatGPT, o campo se chama Custom Instructions e fica em Settings, Personalization, com a chave Enable customization ligada. Segundo a página, a alteração vale na hora para todas as conversas, e o campo aceita até 1.500 caracteres nos planos Free e Go e até 5.000 nos planos Plus, Pro, Business, Enterprise e Education. A memória é outra coisa: a própria página separa o que você escreve do que a ferramenta guarda ao longo das conversas. Ela fica em Settings, Personalization, Memory, com um resumo do que foi guardado, que você pode corrigir, apagar ou marcar com “Don’t mention this again”; o chat temporário não cria memória. No Claude, o campo se chama Instructions for Claude, dentro de Settings, e a Anthropic diz que ele vale para todas as suas conversas; a página não informa limite de caracteres. Cada projeto tem instruções próprias (“Set project instructions”), válidas só ali; no plano gratuito, até cinco projetos. A memória do Claude fica em Settings, Memory, listada por tópicos que você lê, edita ou apaga; vem ligada por padrão nos planos Free, Pro e Max; no Team e no Enterprise, o administrador libera e cada membro precisa ligar. Dá para desligar numa conversa específica antes da primeira mensagem, e cada projeto tem memória separada.
Treino com os seus dados é um terceiro ajuste, em outro lugar. Nos planos pessoais do ChatGPT, a chave Improve the model for everyone fica em Data controls; ligada, a OpenAI pode usar conversas e memórias para melhorar modelos, e o conteúdo dos planos Business, Enterprise e Edu não é usado por padrão. No Claude, a chave Help improve our AI models fica em Settings, Privacy, vale para Free, Pro e Max, e desligada deixa as conversas novas fora do treino futuro; os produtos comerciais seguem regra própria. O corte é plano pessoal contra plano corporativo, e a pergunta inteira, com a anonimização antes do upload, está em posso colocar documento de cliente no ChatGPT?.
A memória guarda o que você não pediu
A configuração é o que você escreve. A memória é o que a ferramenta decide guardar enquanto você conversa. É por aí que o dado de cliente entra sem ninguém perceber: você discute um caso na terça, e na quinta ela “lembra” do nome da parte numa conversa que não tinha nada a ver.
Por isso a regra tem duas partes. Nas instruções permanentes entra só o que é meu e vale para qualquer conversa. Para conversa de caso, ou uso o modo que não grava memória, ou abro de tempos em tempos a lista do que foi guardado e apago o que é de cliente. A ferramenta não faz essa triagem por você.
Para testar hoje
Um pedido no degrau dois, o de instruir: transforma os seus dados no texto pronto para colar no campo de instruções, e recusa dado de caso. Troque o que está entre colchetes e cole em qualquer ferramenta.
Você vai escrever o texto que eu vou colar no campo de instruções permanentes da minha ferramenta de IA (as instruções personalizadas do ChatGPT ou as instruções da conta no Claude). Esse texto vale para todas as minhas conversas, então ele descreve a mim e ao meu jeito de trabalhar, nunca um caso.
Regras do texto:
1. Escreva em primeira pessoa, como se eu estivesse falando com a ferramenta ("Sou advogado..."). Sem "aja como advogado": o que entra é contexto, não papel.
2. Use só o que está no perfil abaixo. Não acrescente área, tribunal ou preferência que eu não informei. Se um campo estiver vazio, pule.
3. Não inclua nome de cliente, de parte, número de processo nem fato de caso concreto, mesmo que eu tenha escrito algum no perfil por engano. Se encontrar, deixe de fora e me avise no fim.
4. Organize em blocos curtos, nesta ordem: quem eu sou; para quem trabalho; onde atuo; como quero as respostas; o que você nunca deve fazer; o que fazer quando não souber.
5. Limite: [número de caracteres que o campo da sua ferramenta aceita, se souber; senão escreva "sem limite"]. Se houver limite, entregue dentro dele e informe a contagem de caracteres no fim.
6. Depois do texto, liste em até três linhas o que ficou de fora por falta de informação e que eu deveria acrescentar.
Perfil:
- Área de atuação: [área]
- Tipo de cliente: [pessoa física, empresa, porte, setor]
- Cidade e estado: [cidade/UF]
- Tribunais e órgãos em que atuo: [tribunais, varas, juizados, órgãos administrativos]
- Experiência com IA: [iniciante, intermediário ou avançado]
- Formato que prefiro nas respostas: [tópicos, texto corrido, tabela; tamanho]
- Tom: [direto, técnico, crítico, sem elogio]
- O que a ferramenta nunca deve fazer: [por exemplo: citar lei, súmula ou julgado sem dizer onde conferir; inventar número de processo; completar fato que eu não dei]
- O que eu mais vou pedir: [peças, contratos, resumo de documento, atendimento, conteúdo, rotina do escritório]
Não coloque aqui dado de cliente nem caso concreto: isto vai ficar gravado em todas as conversas.
O que saiu no teste feito para este artigo, em outubro de 2026, numa sessão nova de uma ferramenta de IA, sem nenhum outro contexto, com um perfil fictício de advocacia trabalhista em Cuiabá, limite informado de 1.500 caracteres e, de propósito, uma observação com nome de cliente e número de processo no fim do perfil: o texto veio nos seis blocos, na ordem pedida, em primeira pessoa e sem “aja como”, com as quatro proibições do perfil. O caso plantado não entrou, e a resposta avisou que tirou nome, empresa, número e tema do caso, sugerindo passar o caso em cada conversa ou num projeto separado. No fim, listou três lacunas úteis: como quer receber minutas, rotinas fixas do escritório e quanto de explicação sobre IA o profissional quer.
Onde ele falha, e por isso a revisão é sua: a ferramenta errou a própria contagem. Escreveu “cerca de 1.080 caracteres”, e o texto tinha 1.208; perto do limite, quem confia na conta estoura o campo, então conte você antes de colar. Ela também acrescentou uma preferência que o perfil não dava (“preciso de respostas que eu consiga conferir”), contra a regra de usar só o que foi informado, abriu com uma linha fora dos blocos pedidos e repetiu “iniciante” três vezes. E escreveu os títulos em negrito com asteriscos, que podem aparecer como sinais soltos no campo. Dado de cliente e caso concreto não entram em instrução permanente, nem anonimizados.
Na prática
- Abra as suas últimas três conversas com a IA e marque o que você digitou igual nas três: área, cidade, “seja direto”, “não invente”. Isso vai para a configuração.
- Rode o prompt acima com o seu perfil, sem dado de cliente, informando o limite do campo da sua ferramenta. Conte os caracteres do que saiu.
- Cole no campo: Settings, Personalization, Custom Instructions no ChatGPT; Settings, Instructions for Claude no Claude. Guarde o mesmo texto num arquivo seu.
- Abra uma conversa nova e faça um pedido que você faz toda semana, sem explicar nada. Compare com a resposta da semana passada.
- Abra a lista de memória da ferramenta e apague o que for de cliente ou de caso. Repita uma vez por mês.
- O caso de hoje continua indo no pedido ou no documento anexado. E a conferência de cada súmula e artigo continua sendo sua, com ou sem configuração.
Fontes
- OpenAI, Central de Ajuda: ChatGPT Custom Instructions (caminho do menu e limite de caracteres por plano) (help.openai.com)
- OpenAI, Central de Ajuda: Memory in ChatGPT (memória, resumo de memória, chat temporário e o ajuste Improve the model for everyone) (help.openai.com)
- Anthropic, Central de Ajuda do Claude: Understanding Claude's personalization features (Instructions for Claude, instruções de projeto e skills) (support.claude.com)
- Anthropic, Central de Ajuda do Claude: Use Claude's chat search and memory to build on previous context (support.claude.com)
- Anthropic, Central de Privacidade: How do I change my model improvement privacy settings? (privacy.claude.com)
Esta ideia apareceu primeiro em um vídeo curto gravado para as redes sociais, primeiro episódio de uma série sobre montar o assistente do escritório, em 9 de julho de 2026.
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