Não sei o que perguntar para a IA. O que eu faço? Devolva a cadeira e mande ela te entrevistar
Não pergunte. Mande a ferramenta entrevistar você antes de propor qualquer coisa: uma pergunta por vez, com teto de perguntas, e no fim um resumo do que ela entendeu e do que falta. Funciona em caso novo, quando você não sabe o que ficou de fora do relato. Não funciona quando a resposta está no documento ou com o cliente.
Neste artigo (7 seções)
Você sentou na cadeira errada
Pensa num cliente sentado na sua frente. Ele conta o caso inteiro do jeito dele, convencido de que falou tudo o que importa. Você não aceita a história como ela veio. Pergunta, pergunta de novo, e na terceira pergunta aparece o documento que ele não achou relevante, ou o detalhe que muda a tese inteira. Você faz isso porque aprendeu na marra que “nenhuma história chega completa, nunca”.
Agora repara no que acontece quando você abre a ferramenta. Você senta na cadeira do cliente. Conta a história do seu jeito, convencido de que falou tudo, e espera a resposta pronta. E ela responde. Não desconfia, não pede o documento que faltou.
A saída eu gravei num vídeo, com estas palavras: “Devolve a cadeira pro lugar certo. Antes de pedir qualquer coisa, manda ela te entrevistar.”
A costureira boa faz isso sem ninguém mandar. Você diz que quer um vestido e ela não sai cortando o tecido. Tira a medida primeiro.
Eu já escrevi que a resposta é do tamanho do relato e que o jeito de pedir tem quatro degraus. Aqui o problema é outro: você não sabe o que ficou de fora. Aumentar o relato não resolve isso, porque ninguém consegue listar o que esqueceu.
Por que inverter funciona
Quando você escreve o pedido, quem decide o que é relevante é você. É o mesmo filtro do cliente, e ele falha do mesmo jeito. Quando a ferramenta pergunta, o filtro muda de mão. Em vez de você adivinhar o que ela precisa saber, ela puxa esse contexto de você.
Inverter também resolve a tela em branco. Quem não sabe o que perguntar não precisa perguntar. Precisa responder, e responder todo advogado sabe.
O Google descreve a mesma técnica. No blog oficial do Google Workspace, em novembro de 2025, uma consultora do Google lembra que o Gemini também gera perguntas para você e sugere pedir, em tradução livre, “faça três perguntas que esclareçam melhor os objetivos da minha conferência”. O mesmo texto diz que pedir é uma conversa, com ida e volta, e não a tentativa de escrever o pedido perfeito de uma vez.
A Anthropic tem uma regra de ouro na documentação: mostre o seu pedido a um colega com pouco contexto sobre a tarefa e peça que ele siga. Se ele ficar confuso, o modelo também vai ficar. A entrevista é esse teste feito pela própria ferramenta. Cada pergunta dela é um ponto em que o colega teria travado.
Conferido em setembro de 2026 na documentação da OpenAI para desenvolvedores: a OpenAI descreve que o Deep Research do ChatGPT segue três passos, e o primeiro é o esclarecimento. Antes de a pesquisa começar, um modelo intermediário ajuda a esclarecer a intenção do usuário e a reunir mais contexto, como preferências, objetivos ou restrições. Para quem usa o modelo por API, a mesma página avisa que esse passo não vem incluído e que ele é opcional: com um pedido suficientemente detalhado, não há necessidade de esclarecer nem de reescrever. É o fabricante pondo a entrevista antes do trabalho longo, e dispensando a entrevista quando o relato já está completo.
Quando funciona
- Caso novo, logo depois do atendimento inicial, quando o que você tem é o que o cliente lembrou de contar.
- Tela em branco. Você sabe que quer ajuda e não sabe formular o pedido.
- Antes da segunda conversa com o cliente. A lista do que falta perguntar sai pronta.
- Decisão em que você está dentro demais para enxergar. Para o dono de negócio, eu mostrei isso em sete perguntas para achar os pontos cegos.
Quando não funciona
Quando o documento existe. Se o contrato está na sua mão, não responda de memória o que está escrito nele. Suba o documento. Entrevista é para o que não está em papel nenhum.
Quando a tarefa é braçal. Formatar, listar prazo, montar índice. Não há o que descobrir, e a entrevista vira burocracia.
Quando a resposta está com o cliente. A ferramenta entrevista você, não ele. Se você respondeu “não sei” duas vezes seguidas, a entrevista acabou. O próximo passo é o telefone.
Quando você espera desconfiança. Ela pergunta o que costuma importar em casos parecidos. E não duvida da sua resposta: o que você diz, ela anota como fato. A terceira pergunta, a que só quem olhou o cliente no olho faria, continua sendo sua.
Tem ainda um risco que cresce com a entrevista. Respondendo, você conta mais do que escreveria sozinho. A Recomendação n. 001/2024 do Conselho Federal da OAB, aprovada em novembro de 2024, pede no item 2.1 especial atenção ao inserir dados que possam, sem querer, tornar o cliente identificável. O cuidado de antes do envio eu expliquei em posso colocar documento de cliente no ChatGPT?.
Como parar a entrevista
Entrevista sem freio vira interrogatório, e você desiste na décima pergunta. Eu uso três freios.
O primeiro é o teto: o número de perguntas vai escrito no pedido. O segundo é a palavra: combino que, se eu escrever “chega”, ela para na hora. O terceiro é o sinal: dois “não sei” seguidos, ou uma pergunta cuja resposta não mudaria nada do que eu faria.
Parou, vem o resumo. Leia como você lê a minuta do estagiário: o que ela entendeu certo, o que entendeu torto, o que ela tratou como fato e era palpite do cliente. Corrija antes de pedir qualquer coisa. Só então peça o trabalho. O resumo corrigido é o relato que você não teria escrito sozinho.
Para testar hoje
Um pedido no degrau dois, o de instruir, que prepara o relato para os degraus seguintes. Ele faz a ferramenta entrevistar você sobre um caso novo antes de propor qualquer coisa. Troque o que está entre colchetes e cole em qualquer ferramenta.
Você vai me entrevistar antes de propor qualquer coisa. Eu sou advogado e acabei de fazer o atendimento inicial de um caso novo.
Como funciona:
1. Leia o relato abaixo e me faça UMA pergunta por vez. Espere a minha resposta antes de fazer a próxima.
2. Comece pelo que mais muda o caminho do caso: o que o cliente quer de verdade, fato, data, documento que existe.
3. No máximo [7] perguntas. Se eu escrever "chega", pare na hora.
4. Se eu responder "não sei", registre como ponto em aberto e siga. Não complete com suposição.
5. Durante a entrevista, não proponha tese, peça nem estratégia. Não cite lei, súmula ou julgado.
Quando terminar, entregue só isto:
A. O que eu entendi: os fatos em ordem, cada um marcado como "do relato" ou "da sua resposta".
B. O que ainda falta: o que perguntar ao cliente ou pedir em documento, em ordem de importância.
C. O que eu não perguntei e talvez importe: até três pontos.
Não invente fato. O que não estiver no relato ou nas minhas respostas não existe.
Área: [área do caso]
Relato do atendimento:
[cole aqui o relato, sem nome do cliente, sem CPF ou CNPJ, sem endereço e sem valor que identifique alguém]
O que saiu no teste feito para este artigo, em setembro de 2026, com um relato fictício de quarenta e duas palavras sobre uma reforma de cozinha e banheiro que parou depois de algumas semanas (perguntas e respostas simuladas, sem caso real): em sete perguntas apareceram três fatos que o relato não tinha. O adiantamento foi pago na conta de outra pessoa, não na do empreiteiro. Um segundo pedreiro já estava mexendo no banheiro, ou seja, a prova do estado da obra estava sumindo. E o cliente pedia o dinheiro de volta, mas a pressa dele era ter o banheiro pronto em dois meses. No resumo, o “não sei” virou ponto em aberto, sem suposição, e o percentual de obra feita entrou como palpite do cliente.
Onde ele falha, e por isso a revisão é sua: seis das sete perguntas vieram com duas perguntas dentro, apesar da regra de uma por vez. O que o cliente quer, que o pedido mandava perguntar primeiro, só veio na última. Ela não duvidou de nenhuma resposta. E cinco pendências do resumo só o cliente podia responder. Repare também que, na sétima resposta, já tinha aparecido detalhe de família que não estava no relato. Detalhe assim identifica.
Na prática
- Pegue o relato do último atendimento inicial. Tire nome, documento, endereço e valor que identifique alguém.
- Cole o pedido acima com o relato e escolha o teto: cinco perguntas com pressa, dez com tempo.
- Responda como responderia a um colega. Quando não souber, escreva “não sei”. Não complete de memória o que está em documento.
- Pare no teto, no “chega” ou no segundo “não sei” seguido.
- Leia o resumo como minuta. Corrija o que veio torto e separe fato de palpite.
- Leve a lista do que falta para a segunda conversa com o cliente. A tese, a peça e a assinatura continuam suas.
Fontes
- Google Workspace Blog: Because you asked, Take prompting to the next level (5/11/2025) (workspace.google.com)
- Anthropic, Prompting best practices: Be clear and direct, golden rule (documentação oficial) (platform.claude.com)
- OpenAI, Deep research guide: Prompting deep research models (documentação oficial para desenvolvedores) (developers.openai.com)
- Conselho Federal da OAB, Recomendação n. 001/2024, item 2.1 (Diário Eletrônico da OAB, 14/11/2024, p. 1 a 5) (diario.oab.org.br)
- OAB, notícia: OAB aprova recomendações para uso de IA na prática jurídica (11/11/2024) (oab.org.br)
Esta ideia apareceu primeiro em um vídeo curto para as redes sociais, em 28 de agosto de 2026.
Achou útil? Mande para alguém.
Compartilhar no WhatsAppCompartilhar no LinkedInReceba o boletim de sexta
Os artigos da semana e uma nota curta, toda sexta de manhã. Sem oferta.