Como dar instruções para um agente de IA executar uma tarefa repetitiva sem perder o trabalho no meio? Quatro instruções e a regra zero: não invente
Com uma regra zero e quatro instruções, escritas antes de começar. Zero: não invente; o que não achar, marque 'não encontrado'. Um: um item por vez, na sua ordem. Dois: salve o progresso a cada item num arquivo de controle, não só no fim. Três: se falhou, registre e siga. Quatro: se depende de você, pare e avise.
Neste artigo (9 seções)
Oitenta contratos e uma noite
Você tem uma pasta com oitenta contratos e precisa de uma planilha: partes, vigência, multa, foro. Tarefa de paciência, como separei em o que o advogado pode delegar para a IA. Você manda o agente rodar. Ele vai bem até o contrato quarenta e três, a conversa cai, e os quarenta e dois anteriores não existem em lugar nenhum. Ou pior: ele chega ao fim, e a coluna de multa dos contratos que não tinham multa está preenchida com um percentual bem razoável. Que ele inventou.
Os dois problemas têm a mesma causa. Você deu a tarefa, mas não deu as regras de execução. Na live em que mostrei um lote rodando, listei as regras que acho importante colocar sempre no pedido. São quatro instruções e uma regra zero, e valem para qualquer ferramenta que execute uma fila longa.
A regra zero: não invente
Antes das quatro, a que chamei de regra zero na live: “não invente, não preencha as lacunas”. Uma tarefa longa é o pior lugar para a invenção, porque o palpite chega formatado igual ao dado verdadeiro, no meio de setenta e nove linhas certas, e você só o encontra quando já virou problema.
A instrução precisa dizer o que fazer no lugar de inventar: “se não encontrar, escreva ‘não encontrado’”, e, se der, que ele tente identificar o porquê. A documentação da Anthropic sobre reduzir alucinação recomenda isso: dar permissão explícita para o modelo dizer que não sabe, e instruí-lo a usar só a informação dos documentos fornecidos, não o conhecimento geral dele.
A regra zero muda o que você confere. Sem ela, todas as linhas são suspeitas. Com ela, a lista de “não encontrado” é a sua prioridade.
Instrução um: um item por vez, na ordem da lista
Parece óbvio e quase ninguém escreve. Sem a ordem, o agente escolhe por onde começar. Com a ordem, a lista é sua: os contratos que vencem este mês primeiro, “na tua ordem de prioridade”, como eu disse na live. Se a tarefa parar no meio, o que ficou pronto é o que importava mais.
Um por vez também evita que ele abra dez de uma vez e grave a multa do contrato três na linha do contrato sete. A Anthropic, ao descrever como montou agentes para trabalhos longos de programação, diz que pediu ao agente para trabalhar em uma funcionalidade por vez, e chama isso de crítico para ele não tentar fazer demais de uma vez.
Instrução dois: salve o progresso a cada item, não só no fim
É a instrução que resolve o contrato quarenta e três. Na live: “salvar o progresso a cada [item] concluído e não só no final, porque evita dele perder trabalho que já foi feito”.
O jeito mais simples é um arquivo de controle: uma linha por item, com o status (pendente, concluído, falhou) e uma observação. O agente cria o arquivo antes de começar, com tudo “pendente”, e muda a linha de cada item quando termina. Se a tarefa cair e você mandar retomar, a primeira instrução é “leia o controle e continue do primeiro pendente”.
É o que a Anthropic descreve para agentes que rodam por horas: um arquivo de progresso que cada sessão lê ao começar, porque a sessão nova não tem memória da anterior. A documentação de prompts diz que, em tarefas longas, o modelo pode salvar o estado e continuar numa janela nova, recomenda pedir explicitamente que ele registre o progresso e dá como exemplo um “progress.txt”. Em casa é a lista de compras: você risca cada item quando ele entra no carrinho, não no caixa. Se o telefone toca no meio do mercado, a lista riscada mostra onde você parou.
Em conversa comum, sem pasta, “salvar” é só texto na tela; a instrução só protege quando o agente escreve arquivos.
Instrução três: se falhou, registre e siga
Um arquivo não abre, a digitalização parou na página um. Sem instrução, o agente faz uma de duas coisas erradas: para o lote inteiro no item ruim, ou insiste nele até gastar a tarefa. Na live, a regra foi curta: “se falhou, registrar isso na tua planilha”. Completa: não pare o lote; marque “falhou” no controle; escreva em uma linha o motivo provável; siga. No fim, os que falharam estão listados com o porquê, e você resolve todos de uma vez.
Instrução quatro: se travar em algo que depende de você, pare e avise
Tem coisa que o agente não deve resolver sozinho: um arquivo que pede senha, uma pasta que não está acessível, uma decisão que as suas regras não cobrem. A instrução escrita é: “pare e me avise descrevendo o que falta; não contorne e não decida por mim”.
É a instrução que protege a assinatura. Agente que contorna um bloqueio por conta própria está decidindo em seu nome, e em agentes que trabalham sozinhos escrevi que autonomia maior pede conferência maior. A quatro é o freio.
Conferido em outubro de 2026 na Central de Ajuda da Anthropic, sobre o Claude Cowork: no computador, o Claude só lê e grava arquivos nas pastas que você conectou, e exige a sua permissão explícita antes de apagar qualquer arquivo em definitivo. Há modos de permissão: no manual, que é o padrão, ele pausa e pede aprovação para as ações; no automático segue sem parar a cada passo. Na versão clássica existe um terceiro, em que ele não pausa e nada confere as ações automaticamente; na experiência nova, em implantação gradual, aparecem só os dois primeiros, e em planos de equipe o administrador decide se o automático fica disponível. A pasta conectada é onde o arquivo de controle vive, e o modo manual é o freio que acompanha o “pare e avise”. Na live eu disse que é importante “que você tenha uma pasta específica pra isso, pra um trabalho específico, pra ele não ter acesso a todo o seu computador”. O retrato atual das ferramentas fica em /ferramentas.
O que as quatro não fazem
Elas não conferem o resultado. Elas o tornam conferível: o controle diz o que concluiu e o que falhou, o relatório diz o que ficou “não encontrado”, e a planilha está lá para ser aberta contra o documento. E, como em a escada dos quatro níveis, delegar é entregar a rotina, não a decisão. Quem lê o contrato que importa, decide o que fazer com a multa e assina, continua sendo você.
Para testar hoje
Um pedido no quarto degrau, delegar, para uma ferramenta que escreve em pasta: processa um lote de contratos e grava a planilha, com as quatro instruções e a regra zero embutidas. Troque o que está entre colchetes.
Você vai processar um lote de contratos que está na pasta [nome da pasta]. São [N] arquivos. Nada entra nesta pasta sem ter sido anonimizado antes: sem nome de cliente, sem CPF ou CNPJ, sem valor que identifique alguém.
Tarefa: para cada contrato, extrair e gravar na planilha "extracao.csv" (uma linha por contrato) estas colunas: arquivo; contratante; contratada; objeto (uma linha); início da vigência; fim da vigência ou prazo; multa por rescisão (valor ou percentual e sobre o quê); foro; observação.
Regras, em ordem de importância:
0. Não invente. Se o dado não estiver escrito no contrato, escreva "não encontrado". Não deduza, não calcule e não complete com o que seria usual. Se o dado estiver escrito com outro nome (por exemplo, "cláusula penal" em vez de "multa"), use o que está escrito e anote o nome original na coluna observação.
1. Um contrato por vez, na ordem da lista abaixo. Não comece o seguinte antes de terminar o anterior.
2. Antes de começar, crie o arquivo "controle.txt" com uma linha por contrato: nome do arquivo e o status "pendente". A cada contrato concluído, grave a linha dele na planilha e mude o status no controle para "concluído" antes de passar ao próximo. Se a tarefa for interrompida e retomada, leia o controle e continue do primeiro "pendente".
3. Se um contrato não abrir, estiver incompleto ou ilegível, não pare o lote: marque "falhou" no controle, escreva em uma linha o motivo provável e siga para o próximo.
4. Se travar em algo que depende de mim (um arquivo que pede senha, uma pasta que não está acessível, uma decisão que não está nestas regras), pare e me avise descrevendo o que falta. Não contorne e não decida por mim.
Ao final, entregue um relatório curto com: quantos contratos concluíram, quantos falharam e por quê, todas as células "não encontrado" e qualquer coisa que pareceu estranha ou inconsistente.
Não altere os contratos originais e não crie nenhum arquivo fora desta pasta.
Lista de contratos, na ordem de prioridade:
[contrato-01.pdf]
[contrato-02.pdf]
[contrato-03.pdf]
[...]
O que saiu no teste feito para este artigo, em outubro de 2026, com um agente que lia e gravava numa pasta com um lote fictício de quatro contratos curtos (um completo, um sem multa e sem foro, um que chama a multa de “cláusula penal” e um cortado no meio da cláusula de prazo): ele gravou o arquivo de controle e a planilha na pasta, com três contratos “concluído” e o cortado como “falhou”, com o motivo na mesma linha, sem parar o lote. Marcou multa e foro do segundo como “não encontrado”, e anotou que a cidade que aparecia no contrato era só o local da assinatura, não o foro. Achou a multa do terceiro sob o nome “cláusula penal compensatória”, registrou o nome original e não calculou o valor em reais nem a data final dos contratos que só tinham o prazo.
Onde ele falha, e por isso a revisão é sua: o teste mostrou o controle no estado final; não deu para ver se ele foi atualizado a cada item, e a única forma de provar a instrução dois é interromper o lote no meio e mandar retomar. A regra três fez o agente descartar a parte legível do contrato cortado, porque o pedido não diz o que fazer com item parcial. Ele decidiu sozinho que “locatária” vira “contratante” e só avisou na observação, quando era caso de perguntar. Para o contrato que começava “na data de assinatura”, copiou a data do rodapé, o que já é uma pequena dedução. E presumiu que os arquivos estavam anonimizados sem conferir: a anonimização é sua, antes de o arquivo entrar na pasta. A instrução quatro não foi acionada e ficou sem prova.
Na prática
- Antes de soltar qualquer lote, escreva as cinco linhas: não invente (e o que escrever no lugar); um por vez, na sua ordem; salve a cada item num arquivo de controle; se falhou, registre e siga; se depende de mim, pare e avise.
- Coloque o lote numa pasta só dele e conecte só essa pasta.
- Rode primeiro com cinco itens, um deles ruim de propósito. Veja se o controle foi atualizado a cada item e se o ruim virou “falhou” sem parar o resto.
- Leia o controle e o relatório inteiros. Abra os “não encontrado” e os “falhou” contra o documento. Depois, a planilha por amostra.
- Corrija o pedido, não só o resultado: o que a ferramenta decidiu sozinha vira regra na próxima rodada. A decisão sobre cada contrato, e a assinatura, não entram no lote.
Fontes
- Anthropic, documentação oficial: Reduce hallucinations (permitir que o modelo diga que não sabe; restringir ao documento fornecido) (platform.claude.com)
- Anthropic, documentação oficial: Prompting best practices (be clear and direct; long-horizon reasoning and state tracking; progress.txt) (platform.claude.com)
- Anthropic Engineering: Effective harnesses for long-running agents (26 de novembro de 2025) (anthropic.com)
- Anthropic, Central de Ajuda do Claude: Get started with Claude Cowork (support.claude.com)
Esta ideia apareceu primeiro em uma live de quarta-feira no YouTube, sobre delegar uma tarefa repetitiva a um agente, em 12 de agosto de 2026.
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