IA no jurídico

Não peça resumo do processo: peça o índice com o número de cada página

Porque o resumo decide por você o que importa, e no direito o que importa costuma ser o detalhe que ele cortou. Peça um índice: fatos, teses, pedidos e prazos, cada um com a página onde está. Você ganha um mapa para ler mais rápido, com trecho e página para conferir, e a leitura do processo continua sendo sua.

Neste artigo (6 seções)

O resumo decide por você

Um processo de trezentas páginas cai na sua mesa no fim da tarde. A tentação é subir o PDF e escrever: “resuma esse processo”. Volta um texto bonito, de uma página, e você tem a sensação de que leu. Não leu. Alguém leu por você e escolheu o que te contar.

A pior coisa que você pode pedir para um contrato ou para um processo talvez seja um resumo. Porque o resumo suprime informação, e no direito a informação suprimida costuma ser justamente a que decide o caso: a data em que a outra parte não juntou o documento, o pedido subsidiário escondido no fim da inicial, a intimação que ninguém respondeu.

É como pedir para alguém resumir o extrato do seu cartão. A pessoa diz: “você gastou muito com comida”. Verdade, e inútil. O que você queria era a compra que você não fez, na linha que o resumo engoliu.

Resumo é uma opinião sobre o que importa. E a ferramenta não sabe o que importa no seu caso, porque ela não conhece a sua tese.

O buraco que o resumo esconde

Tem uma segunda razão, menos óbvia. Toda ferramenta tem um limite do que consegue segurar de uma vez. Pensa na sua mesa de trabalho: cabe o que cabe, e o que ficou de fora não está ao seu alcance. Num processo grande, parte do que você mandou pode simplesmente não estar na mesa na hora em que a resposta é escrita.

O resumo esconde isso. Um resumo com buraco continua parecendo um resumo. Ele fica bonito no começo, bambeia no meio e se recompõe no fim, e você não tem como saber o que ficou de fora.

O índice com número de página, não. Se ele salta da página 40 para a página 190 sem nenhum item, você enxerga o buraco na hora. O número da página é o seu detector de leitura pela metade.

O pedido certo

Suba o processo e peça assim:

Monte um índice deste processo em quatro blocos: fatos, teses, pedidos e prazos. Em cada item, o número da página onde ele está e a transcrição literal do trecho. Em tópicos, no máximo duas laudas. Se não encontrar algo, diga que não encontrou. Não complete com o que não está no documento.

Presta atenção: isso não substitui a sua leitura. Te faz ler mais rápido e melhor, porque você já chega no ponto sabendo o que procurar. Conhecer o caso continua sendo obrigação sua.

E não é manha minha. A documentação da Anthropic, ao tratar de tarefas com documentos longos, recomenda pedir que o modelo primeiro transcreva os trechos relevantes e só depois execute a tarefa, porque isso o ajuda a se concentrar no que está no documento e a ignorar o resto. Página e trecho não são capricho de advogado. São o jeito de a ferramenta trabalhar melhor.

Quatro pedidos que transformam um resumo em análise

Numa live de agosto eu prometi esses quatro pedidos e acabei não entregando. Estão aqui.

Primeiro, o índice com página. É o pedido acima. Estrutura em vez de prosa, e cada item amarrado a um lugar do processo.

Segundo, trecho e página em toda afirmação. Sempre que a ferramenta disser alguma coisa sobre os autos, exija a transcrição literal e a página. Afirmação sem página é a ferramenta falando de memória, e memória de ferramenta é chute bem escrito. Vale o mesmo que vale para jurisprudência: se ela citou e você não abriu, você não sabe. Como conferir está em Como saber se a jurisprudência que a IA citou existe?.

Terceiro, fato separado de interpretação. Peça duas colunas: o que o documento diz e o que ela concluiu a partir disso. O que a outra parte alegou não é fato, é alegação. O que a perícia apurou é uma coisa, o que a ferramenta achou que a perícia quis dizer é outra. Quando as duas colunas se misturam, você assina a conclusão dela achando que é a sua.

Quarto, perguntas pendentes. Peça a lista do que ela não conseguiu responder só com os autos: o que ficou contraditório entre uma peça e outra, onde faltou documento, qual prazo aparece sem data de intimação. Essa lista costuma valer mais do que o índice, porque ela mostra onde o processo está frágil, dos dois lados.

Com os quatro juntos você não tem um resumo. Tem um mapa com endereço, uma tabela de fatos, uma tabela de conclusões e uma lista do que falta. Isso é análise, e ela veio de um pedido, não de uma ferramenta nova.

O que continua sendo seu

A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB diz, no item 3.3, que a dependência excessiva de ferramentas de IA não pode substituir a análise realizada pelo advogado. E, no item 3.7, que o advogado que usa IA em litígio deve revisar integralmente as saídas antes de apresentá-las em processo judicial e não confiar exclusivamente nos resultados dela.

Repare que o índice serve exatamente a isso. Ele é para você ler melhor, não para você ler menos. Quem decide a tese e assina é quem leu, e sobre quem responde por isso eu já escrevi em Quem responde pelo erro da IA na advocacia?.

Na prática

  1. Pegue o próximo processo que chegar e, em vez de pedir resumo, peça o índice com o pedido deste artigo. Guarde o texto do pedido para reutilizar.
  2. Abra três páginas do índice ao acaso e confira se o trecho transcrito está mesmo lá. Se uma falhou, desconfie de todas e peça de novo, avisando o que falhou.
  3. Faça os outros três pedidos na mesma conversa: trecho e página em toda afirmação, fato separado de interpretação, perguntas pendentes.
  4. Leia o processo com o índice ao lado, começando pelos pontos que a lista de pendências apontou. É a leitura mais rápida que você vai fazer, e é sua.
  5. Só depois disso peça um resumo, se precisar de um: para o cliente, para o sócio, para a reunião. Nunca como primeiro contato com os autos.

Fontes

  1. Recomendação n. 001/2024 do Conselho Federal da OAB, itens 3.3 e 3.7 (Proposição 49.0000.2024.007325-9/COP) (s.oab.org.br)
  2. Anthropic, Prompting best practices, seção Long context prompting: Ground responses in quotes (documentação oficial) (platform.claude.com)

Esta ideia apareceu primeiro em um vídeo curto para as redes sociais, em 9 de julho de 2026.

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