IA no jurídico

A IA escreve bem, mas não escreve como você: peça sem erro não é peça pronta

Porque correção é o mínimo, não o fim. Sem referência sua, a ferramenta devolve a média do que já leu: tecnicamente certa e de ninguém. A peça fica pronta quando carrega o jeito de quem assina, e isso vem do material que você dá a ela, não da ferramenta. Ela escreve o rascunho; você lê inteiro, reconhece e assina.

Neste artigo (5 seções)

Você leu a peça inteira e não protocolou

Você leu a peça inteira que a IA escreveu e não achou nenhum erro. Mesmo assim, não protocolou. Ficou aquele incômodo, e eu sei exatamente o que é isso.

Não é erro técnico. Os fatos estão lá, a tese está lá, a estrutura toda está lá. O que não está lá é você.

Toda banca tem um jeito. Tem o advogado que começa pelo fato mais forte e tem o que constrói até chegar nele. Tem o que escreve curto e o que precisa da fundamentação inteira. Tem o que nunca usa uma palavra e o que usa essa palavra sempre. Isso não é estilo, é assinatura. O juiz que lê você há dez anos reconhece. E se você leu e não se reconheceu, quem te lê também não vai.

Ela devolve a média, e a média não é de ninguém

A máquina não sabe nada disso, porque ninguém contou para ela. Ela devolve a média de tudo o que já leu: tecnicamente correta, e de ninguém. É roupa de tamanho único. Serve em todo mundo e não cai bem em ninguém.

Ela não escreve como você porque você não ensinou a ela como você escreve.

Lembra de quando você contratou um estagiário. Quanto tempo levou para você parar de reler tudo o que ele escrevia? Quantas vezes a peça foi e voltou até ele pegar o seu jeito de abrir, de fundamentar, de fechar? Você ensinou por repetição, durante meses. Com a ferramenta, você ensina uma vez, guarda o que ensinou e não precisa repetir a cada peça.

O pedido errado e o pedido certo

O erro é pedir: “escreva uma petição sobre isso”. Volta um texto correto e sem alma, com a cara de todo mundo. Quando um colega bate o olho, ele percebe que não foi você.

A saída não é escrever tudo do zero de novo. É parar de pedir um texto novo e começar a dar referência do seu texto. Em quatro passos:

Primeiro, escolha três peças suas que ficaram boas. Não as mais recentes: as que você releu e pensou “isso sou eu”. Tire delas o nome das partes, documentos e valores antes de subir, como explico em Posso colocar documento de cliente no ChatGPT?. O estilo está na forma, não no nome do cliente.

Segundo, peça o guia, não a peça. Cole as três e escreva:

Estude estes três textos e descreva o meu estilo de escrita: tamanho de frase e de parágrafo, vocabulário que eu uso e que eu evito, como eu abro, como eu fundamento, como eu fecho, como eu trato o juiz e a parte contrária. Devolva tudo isso como um guia de estilo, em tópicos, para ser seguido em textos futuros.

Terceiro, corrija o guia. Ele vai errar. Vai dizer que você é formal onde você é direto, vai inventar uma preferência que você não tem. Risque o que não parece com você e acrescente o que faltou: a palavra que você nunca usa, a estrutura que você sempre segue. Esse é o passo em que o guia deixa de ser da ferramenta e vira seu.

Quarto, guarde e use. Salve o guia onde a ferramenta guarda instruções fixas: numa pasta de projeto, nas instruções personalizadas da conta ou num arquivo que você cola no começo de cada conversa. Daí em diante, o pedido muda: “escreva seguindo o meu guia de estilo”.

A partir daí ela para de escrever de forma genérica e começa a escrever perto de você. Perto, não igual. A última camada é sempre sua, e é justamente a camada que o juiz reconhece.

Repare que é o mesmo princípio de sempre: a ferramenta devolve o que recebeu. Quem manda vinte palavras recebe a média, como escrevi em Por que a resposta da IA é sempre morna?. Quem manda três peças suas recebe algo que se parece com você.

Sem erro não quer dizer pronta

Peça pronta é a peça que você leu inteira, reconheceu e assina. As três coisas. Sem erro é só a primeira metade da primeira.

E não sou eu que estou inventando a régua. O Estatuto da Advocacia diz que postular a órgão do Poder Judiciário é, como regra, atividade privativa de advogado (artigo 1º, I) e que o advogado responde pelos atos que, no exercício profissional, praticar com dolo ou culpa (artigo 32). A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB pede que o julgamento profissional não seja feito por sistema de IA sem supervisão humana, sem delegar a ele nenhuma atividade privativa da advocacia (item 3.1); diz que a dependência excessiva da ferramenta não pode substituir a análise do advogado (item 3.3); e manda revisar integralmente toda saída da IA antes de apresentá-la em processo judicial (item 3.7, I). A recomendação não tem sanção própria. A responsabilidade pela assinatura já era regra antes dela, e sobre isso escrevi em Quem responde pelo erro da IA na advocacia?.

A régua não muda: ela escreve o rascunho, você lê inteiro e assina. O estilo é seu e a responsabilidade também.

Na prática

  1. Separe três peças suas que ficaram boas e substitua nelas, no próprio editor de texto, tudo o que identifica o cliente. Salve como cópia.
  2. Peça o guia de estilo com o pedido deste artigo. Leia o guia como se fosse a descrição que um estagiário faria de você: risque o que está errado, acrescente o que faltou.
  3. Guarde o guia onde a ferramenta guarda instruções fixas e passe a pedir “seguindo o meu guia de estilo”. Refaça a peça que ficou no incômodo e compare as duas.
  4. Marque no guia o que ainda não ficou seu depois de três peças. É lá que o próximo ajuste entra.
  5. Mantenha a régua no escritório: minuta da ferramenta é rascunho. Vai para o protocolo depois de lida inteira, reconhecida e assinada, e depois de cada citação aberta na fonte.

Fontes

  1. Lei n. 8.906/1994, Estatuto da Advocacia e da OAB, arts. 1º, I, e 32 (planalto.gov.br)
  2. Lei n. 8.906/1994, texto atualizado pela Câmara dos Deputados (cópia oficial de apoio) (www2.camara.leg.br)
  3. Código de Ética e Disciplina da OAB (Resolução n. 02/2015), arts. 35 e 36 (oab.org.br)
  4. Recomendação n. 001/2024 do Conselho Federal da OAB, itens 3.1, 3.3 e 3.7 (Proposição 49.0000.2024.007325-9/COP) (s.oab.org.br)

Esta ideia apareceu primeiro em um vídeo curto para as redes sociais, em 17 de julho de 2026.

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