Trabalhar até tarde é dedicação? Quase sempre é trabalho braçal com carteirinha da OAB
Quase nunca. Trabalhar até tarde só é dedicação quando as horas exigiram o seu julgamento. Formatar, procurar um documento em oitocentas páginas, refazer o relatório pela terceira vez: nada disso exige o advogado, exige as mãos dele. Isso é trabalho braçal com carteirinha da OAB. Mede-se o trabalho pela decisão que só você tomou, não pela hora sentada.
Neste artigo (5 seções)
Ninguém responde em decisões
Pergunta para um advogado como foi a semana e ele responde em horas. “Saí às onze todo dia.” “Virei a noite na véspera do prazo.” Eu respondi assim por anos, e respondi com orgulho. Ninguém responde em decisões. Ninguém diz “essa semana eu decidi não pedir a tutela, e foi a decisão certa”.
Trabalhar até tarde virou medalha dentro do escritório. E a medalha esconde uma pergunta que ninguém faz: daquelas horas, quantas exigiram o seu julgamento de fato?
É como subir de escada com as compras porque o elevador estava parado ali do lado. A sacola chega do mesmo jeito. Você só chega mais cansado, e ainda conta para alguém.
A hora sentada mede o cansaço, não o trabalho
Tem duas medidas do trabalho de advogado, e a gente só aprendeu uma.
A primeira é a hora sentada. Quanto tempo você ficou na frente do computador. Ela é fácil de contar, fácil de mostrar e fácil de comparar com o colega da sala ao lado. O problema é o que ela mede: cansaço.
A segunda é a decisão que só você podia tomar. Ler o processo inteiro e escolher a tese. Decidir o que não pedir. Dizer ao cliente que a causa dele é ruim. Assinar. Ela é difícil de contar e ninguém vê de fora, mas é a única que o cliente reconhece e a única que leva o seu nome.
Agora olhe para a noite virada. Ler documento, formatar, conferir prazo, procurar um documento dentro de oitocentas páginas, refazer o relatório dos fatos pela terceira vez. Nada disso exige o seu julgamento. Exige as suas mãos. Isso é trabalho braçal com carteirinha da OAB, e a carteirinha não muda a natureza do trabalho, só quem está fazendo.
O critério para separar uma coisa da outra eu já escrevi em O que o advogado pode delegar para a IA e o que não pode?: se exige a sua identidade, é seu; se exige a sua paciência, delegue. Aqui a conversa é anterior. É sobre por que você mede o seu valor pela paciência e não pela identidade.
Por que a gente confunde as duas
Três motivos, e eu passei pelos três.
O primeiro é que o braçal aparece e o julgamento não. Formatar oitenta páginas deixa você exausto e deixa a peça bonita; escolher a tese certa leva vinte minutos em silêncio e ninguém aplaude. A gente mede o que é visível.
O segundo é que a gente não sabe delegar, e isso é anterior à inteligência artificial. Eu disse isso no rádio e repito: o problema é de delegação. Quando você passava a tarefa para o estagiário, você contava por quem foi contratado, qual era a tese, o que já tinha lido? Nem isso você explicava para o seu colaborador, e tem preguiça de explicar para a ferramenta. Em casa é igual: “faz um almoço para nós”, e depois reclama que não queria bife. Você não disse o que queria. Aí a tarefa volta errada e você conclui que é mais rápido fazer na mão. E faz. Até meia-noite.
O terceiro é a ilusão de que a ferramenta resolve sozinha. Não resolve. Ela tira o braçal; a conferência continua na sua mesa, e a decisão também. O Conselho Federal da OAB, na Recomendação 001/2024, orienta que o uso de IA generativa não substitua o julgamento profissional nem realize atividades privativas da advocacia. É recomendação, orientativa, sem sanção própria. Mas descreve bem a régua: o que a ferramenta muda é quem faz o braçal, não quem decide.
O advogado que sai às sete não é menos dedicado. Ele só parou de fazer à mão o que já não precisa ser feito à mão.
A rotina escrita uma vez
O relatório dos fatos refeito pela terceira vez é o melhor exemplo, porque ele tem um segredo: a terceira vez é igual à primeira. Mesma estrutura, mesmo padrão do escritório, mesmo jeito de citar as páginas. O que muda é o processo. Você refaz do zero porque nunca escreveu a rotina em lugar nenhum. Ela mora na sua cabeça, e a sua cabeça é o lugar mais caro do escritório para guardar rotina.
Conferido em setembro de 2026 na Central de Ajuda e na Academy da Anthropic, sobre o recurso Skills do Claude: a Anthropic define skills como pastas de instruções, scripts e recursos que o Claude carrega quando a tarefa pede, e diz que, ao receber um pedido, ele revisa as skills disponíveis, carrega as relevantes e aplica as instruções delas. A Central de Ajuda informa que o recurso está nos planos Free, Pro, Max, Team e Enterprise, que exige a execução de código ligada nas configurações, e que uma skill enviada por você fica privada na sua conta até você compartilhá-la. Dá para montar a sua por conversa: o tutorial da Academy orienta abrir um chat dizendo que quer criar uma skill para determinada tarefa, subir modelos e exemplos, responder às perguntas que ele faz sobre o seu fluxo e sobre o que torna um resultado bom, e ele monta o arquivo de instruções; você salva, liga a skill nas configurações e testa pedindo a tarefa. Segundo a mesma página, quando ele a reconhece, aparece “Using” seguido do nome da skill no raciocínio dele. O retrato atual das ferramentas fica em /ferramentas.
Repare no que a caixa acima é e no que não é. É um lugar para a rotina morar fora da sua cabeça: o padrão do relatório, a ordem dos tópicos, o que não pode faltar, um exemplo bom. Não é uma ferramenta que confere o relatório por você. O que volta você lê, e nas primeiras vezes lê inteiro. A skill guarda a sua paciência; o seu julgamento continua não cabendo em arquivo nenhum.
E não precisa ser o Claude. O princípio vale para qualquer ferramenta que deixe você guardar instruções e reaproveitá-las: a rotina que você explica uma vez para de ser refeita toda semana. Muda a tela, não muda a ideia.
Na prática
- Durante uma semana, anote o que fez em cada bloco de uma hora. Ao lado, uma letra: J se exigiu o seu julgamento, B se exigiu as suas mãos. Sem julgar, só anotar.
- Na sexta, some. Quantas horas de J, quantas de B. O número de B é o que a medalha estava escondendo.
- Escolha o B que se repetiu mais de uma vez. Só esse. Se você não sabe por onde começar, a pergunta está em Por onde começar a usar IA no escritório?.
- Escreva a rotina dele uma vez, como explicaria a um colega no primeiro dia: o que entra, o que sai, em que ordem, o que não pode faltar, um exemplo do resultado bom. Guarde isso num lugar reaproveitável: na skill, no projeto, num documento.
- Rode com um caso real e leia o que voltou inteiro. Corrija a rotina, não só o resultado. Na semana seguinte, rode de novo.
- Depois de duas semanas, refaça a anotação. Não meça as horas que sobraram: meça as decisões que você tomou com elas.
Fontes
- Anthropic, Central de Ajuda do Claude: What are skills? (support.claude.com)
- Anthropic, Central de Ajuda do Claude: Using skills in Claude (support.claude.com)
- Anthropic, Claude Academy: How to create a skill with Claude through conversation (academy.claude.com)
- Recomendação n. 001/2024 do Conselho Federal da OAB, item 3 (Proposição 49.0000.2024.007325-9/COP) (s.oab.org.br)
- OAB, notícia: OAB aprova recomendações para uso de IA na prática jurídica (11/11/2024) (oab.org.br)
Esta ideia apareceu primeiro em um vídeo curto para as redes sociais, em 28 de agosto de 2026.
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