IA no jurídico

Como fazer petição com IA passo a passo? Ela não escreve a peça, ela monta

Em três etapas, nunca de uma vez. Primeiro a IA monta o relatório dos fatos, com a origem de cada fato na pasta, e você confere. Depois monta o esqueleto da peça, tópico por tópico, com o que sustenta cada um e o que falta, e você corrige. Só então ela redige. A tese e a assinatura continuam suas.

Neste artigo (7 seções)

Ninguém reforma a casa dizendo “faz a cozinha”

Quem já reformou a casa sabe que não se diz “faz a cozinha” e volta em um mês. Primeiro alguém mede e vê por onde passa o cano. Depois vem o projeto no papel, que você aprova ou manda mudar. Só então a obra. Quem pula do pedido para a obra descobre, com o azulejo colocado, que a tomada ficou atrás da geladeira.

Com petição é igual. Você mesmo não começa escrevendo: lê a pasta, monta o que aconteceu, decide a tese, separa os tópicos e só então redige. São etapas, e você confere cada uma antes da próxima, mesmo sem perceber.

Quem pede “faça a petição inicial” para a inteligência artificial não erra por usá-la. Erra por pedir que ela pule etapas que você não pularia. Elas acontecem do mesmo jeito, só que invisíveis, numa resposta única que você não confere por partes. Numa live de agosto eu resumi assim: a inteligência artificial “não tá aqui pra escrever a tua peça, ela tá aqui pra montar”. A estratégia continua vindo de você.

O pedido de uma vez esconde o erro

Na live: “Eu não quero que você peça diretamente: ‘Ó, crie a minha petição inicial, crie a minha contestação, crie o meu recurso’. Não é assim que faz.”

Quando a peça vem inteira, um fato que não estava em documento nenhum entra no relato, vira fundamento no tópico seguinte e vira pedido no fim, tudo com a mesma fluência. Bem escrito, o erro passa, porque está vestido de parágrafo. Quem já leu uma peça gerada assim conhece a reação: “isso aqui eu nunca falei”.

Montar em etapas muda isso. Cada etapa produz algo pequeno, que você lê inteiro em minutos e corrige antes da próxima. O erro de relatório morre no relatório.

Conferido em outubro de 2026 na documentação da Anthropic, do Google e da OpenAI para quem constrói com as ferramentas: as três recomendam dividir. A Anthropic diz que encadear pedidos, quebrando a tarefa em passos sequenciais, continua útil quando você precisa inspecionar os resultados intermediários, e descreve o padrão mais comum como gerar um rascunho, revisá-lo contra critérios e refiná-lo, cada passo separado. A página dela sobre reduzir alucinações recomenda deixar o modelo dizer que não sabe, pedir citações literais do documento antes da análise, exigir origem para cada afirmação e restringi-lo aos documentos dados, e avisa que isso reduz, não elimina. O Google orienta quebrar a tarefa em componentes mais simples e encadear um pedido por passo. A OpenAI fala em decompor tarefas complexas em subtarefas e planejar antes de executar. Nenhuma promete peça pronta.

Etapa um: o relatório, com a origem de cada fato

Na live, o primeiro pedido com a pasta do caso aberta foi este: “me devolva um relatório de acompanhamento” e “não escreve ainda nenhuma peça”. E o porquê: “Lembra que a gente tem que dividir trabalhos complexos em etapas.”

Na live, o relatório que pedi tinha as partes, a linha do tempo, a fase do processo, a próxima peça cabível e as alternativas descartadas, os fundamentos legais, o que já existe na pasta para sustentar cada pedido, as perguntas que ainda faltam fazer ao cliente e os riscos que a outra parte pode levantar. No pedido deste artigo mudei uma coisa: o fundamento legal sai do relatório e vira marca a pesquisar no esqueleto.

O que faz o relatório servir é que cada fato vem com a origem: o documento e o trecho. Fato que só está no relato do cliente recebe uma marca, porque vai precisar de prova. Isso é diferente de resumo, e a diferença está em Não peça resumo do processo: peça o índice: o resumo decide por você o que importa. O relatório é um índice de fatos com um pedido a mais, o que falta.

Nas minhas pastas entram também as conversas com o cliente e com a equipe sobre o caso, porque é ali que está a estratégia. Isso só vale com três condições: consentimento de quem está na reunião para a gravação; transcrição anonimizada antes de entrar na pasta; ferramenta configurada para não usar o material em treino. A Recomendação 001/2024 do Conselho Federal da OAB, no item 2.1, pede atenção especial a dados que possam tornar o cliente identificável. Na segunda escrevi sobre montar e conferir essa pasta antes de pedir qualquer coisa; aqui parto da pasta pronta.

Etapa dois: o esqueleto, com o que sustenta e o que falta

Relatório lido e corrigido, o reflexo é pedir a peça. Ainda não. Na live: “Eu vou pedir pra ele fazer um esqueleto dessa petição, pra eu poder aprovar e ver se ele tá seguindo a linha de raciocínio que eu espero”.

O esqueleto é a peça em tópicos, sem texto. Para cada tópico: o que ele vai sustentar, em uma frase; quais fatos do relatório o sustentam, pelo número; e o que falta. E a regra que mais importa: onde precisar de lei, súmula ou julgado, a ferramenta escreve [FUNDAMENTO A PESQUISAR] e o que procurar, sem citar nada de memória, porque o que sai de memória pode não existir. A citação que encaixa como uma luva é a que mais merece desconfiança; o jeito de conferir está em Como saber se a jurisprudência que a IA citou existe?.

É o índice antes do livro. No esqueleto você faz o trabalho que só você faz: corta o tópico que a ferramenta montou porque o cliente pediu e não porque a prova sustenta; pesquisa os fundamentos marcados; decide o que não pedir. É quando a tese vira sua.

Etapa três: a peça, só agora

O terceiro pedido é curto: depois do esqueleto aprovado, com os recortes que eu fiz, escreva a peça seguindo o padrão das peças que já estão na pasta. Ela sai com o seu jeito porque a pasta tem peças suas, não porque a ferramenta adivinhou (é o assunto de peça sem erro não é peça pronta), e com os fundamentos que você pesquisou no lugar das marcas.

Daí vem a revisão, que é outra conversa, a de pôr a ferramenta no papel da parte contrária, em Como revisar uma petição com IA antes de protocolar?. E a leitura integral, sua. É o que a OAB recomenda na Recomendação 001/2024: no item 3.7, revisar integralmente todas as saídas geradas pela IA antes de apresentá-las em juízo; no item 3.1, não realizar o julgamento profissional por esses sistemas sem supervisão humana. É recomendação, não lei, mas a régua é essa.

Na live eu fechei assim: “Não peça pra fazer a peça de uma vez. Peça primeiro pra fazer o relatório, dentro do relatório identifica se tem uma peça. Se tem uma peça, faz o esqueleto dela e depois você executa a peça”.

Para testar hoje

Um pedido no degrau três (você entrega a pasta) para a etapa um, e a mensagem curta da etapa dois. Troque o que está entre colchetes e cole em qualquer ferramenta.

Você vai me ajudar a MONTAR uma peça, não a escrever. Nesta etapa, só o relatório dos fatos. Não escreva a petição, não escreva o esqueleto e não cite lei, súmula, julgado ou doutrina.

Leia os documentos abaixo. Eles são a pasta inteira de um caso de [área: consumidor, trabalhista, cível, família]. O cliente é [posição: autor ou réu] e quer [objetivo do cliente em uma frase].

Monte o relatório com estas partes, nesta ordem:
1. Fatos, em ordem cronológica, um por linha e numerados. Cada fato traz a origem entre parênteses: o nome do arquivo e o trecho literal que o sustenta. Fato que só aparece no relato do cliente recebe a marca [SÓ RELATO], mesmo que outro documento repita o que o cliente disse.
2. Contradições entre documentos, ou entre documento e relato, com os dois trechos lado a lado.
3. O que o cliente afirma e nenhum documento da pasta prova.
4. Perguntas que eu preciso fazer ao cliente antes de decidir qualquer coisa, uma por linha.
5. Documentos que faltam na pasta e por que cada um importa.

Regras:
- Não preencha lacuna. Se não está na pasta, escreva "não consta".
- Não qualifique juridicamente os fatos ainda. Nada de "vício", "dano moral", "inadimplemento", "culpa".
- Termine com a frase "Relatório encerrado. Aguardo sua aprovação antes do esqueleto." e pare.

Documentos da pasta (colados sem nome, CPF, CNPJ, endereço, número de protocolo ou qualquer dado que identifique alguém):
[cole aqui os documentos, um por vez, com o nome do arquivo antes de cada um]

Lido e corrigido o relatório, a mensagem seguinte é curta:

Relatório aprovado com estas correções: [o que você corrigiu ou acrescentou]. Agora monte só o ESQUELETO de uma [tipo de peça], em tópicos numerados. Para cada tópico: o que ele vai sustentar, em uma frase; quais fatos do relatório o sustentam, pelo número; e o que falta para sustentá-lo. Onde precisar de lei, súmula ou julgado, escreva [FUNDAMENTO A PESQUISAR] seguido do que eu devo procurar, sem citar nada de memória. Não redija o texto da peça. Pare depois do esqueleto.

O que saiu no teste feito para este artigo, em outubro de 2026, com um caso fictício de consumidor em quatro documentos (relato, nota fiscal, protocolo do SAC, e-mail da loja), rodado numa conversa nova, sem nenhuma outra instrução: o relatório listou quinze fatos, cada um com o trecho do documento de origem, e marcou [SÓ RELATO] tudo o que só o cliente dizia, inclusive a data de entrega que o protocolo da loja apenas repetia como relato. Achou a contradição que importava: o cliente dizia que a loja recusou a troca; o protocolo e o e-mail da loja diziam que a análise estava em curso. Fez quinze perguntas ao cliente, listou nove documentos que faltavam e parou, pedindo aprovação. O esqueleto veio com nove tópicos, os fatos pelo número em cada um, todo fundamento como [FUNDAMENTO A PESQUISAR], nenhuma lei citada, e avisou, no tópico da recusa, que ela precisava ser resolvida com o cliente antes de entrar na peça.

Onde ele falha, e por isso a revisão é sua: o relatório tratou como contradição o que era só diferença de palavras (“braço esquerdo” contra “braço lateral”), e o volume de perguntas pede triagem sua. No esqueleto, a ferramenta montou o tópico do dano extrapatrimonial porque o cliente pediu “alguma coisa pelo transtorno”, com um aviso de “a decidir”, mas montou; e acrescentou tutela de urgência e inversão do ônus da prova, que ninguém tinha pedido. O título de um tópico já dizia que a reclamação foi feita “dentro do prazo”, conclusão que depende da pesquisa que ela mesma marcou como pendente. Ela só sabe o que foi colado: pasta incompleta gera relatório coerente e incompleto, sem aviso. Documento de cliente só entra anonimizado, e a assinatura é do advogado.

Na prática

  1. No próximo caso em que você ia pedir “faça a petição”, não peça. Separe a pasta anonimizada: relato do cliente, documentos e, se tiver, uma peça sua do mesmo tipo.
  2. Rode a etapa um. Leia o relatório inteiro, corte o que não está na pasta e leve as perguntas ao cliente antes de aprovar.
  3. Rode a etapa dois sobre o relatório corrigido. Corte o tópico que a prova não sustenta. Pesquise cada [FUNDAMENTO A PESQUISAR] na fonte oficial.
  4. Só então peça a peça, no padrão das suas. Leia inteira. Ataque-a no papel da parte contrária.
  5. Na segunda vez, guarde os três pedidos num lugar reaproveitável. A rotina é sua; a tese e a assinatura também.

Fontes

  1. Anthropic, Prompting best practices: Chain complex prompts (documentação oficial) (platform.claude.com)
  2. Anthropic, Reduce hallucinations (documentação oficial) (platform.claude.com)
  3. Google, Gemini API: Prompt design strategies (documentação oficial) (ai.google.dev)
  4. OpenAI, Prompt engineering guide (documentação oficial) (developers.openai.com)
  5. Conselho Federal da OAB, Recomendação n. 001/2024, itens 2.1, 3.1 e 3.7 (Diário Eletrônico da OAB, 14/11/2024, p. 1 a 5) (diario.oab.org.br)

Esta ideia apareceu primeiro em uma live de quarta-feira no YouTube, sobre como fazer petições com IA, em 19 de agosto de 2026.

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